Palavra dos Curadores

Em um ano que fomos desafiadas pelo o fenômeno invisível do covid-19, entre a escassez de recursos, afetos e saúde, tivemos na arte o acalanto para superar os dias difíceis. Foi por suas diferentes linguagens manifestadas que expurgamos as vozes sucumbidas, recriamos possibilidades de (re)existir, desejamos e (re)contamos futuros para um novo presente.


Por esses percursos e vivências, entre sentimentos e pensares, que a curadoria se conectou com os 215 filmes inscritos na segunda edição do Festival Cine Arcoverde, que representou essa vasta produção de curtas-metragens brasileiros, dos mais diversos cantos desse país continental. Tivemos o desafio ENORME de selecionar apenas 24 curtas-metragens e convidar 4 longas-metragens para compor as quatro mostras curatoriais do festival: Pernambuco, Sertões, Diversidade e Brasil. E no intuito de ampliar a janela e dar vazão à demanda de produções realizadas localmente e no entorno de Arcoverde, criamos também a Mostra Especial Olho D´água.


Vale ressaltar que essas mostras são recortes. Esses filmes são fragmentos. Essa programação é uma tentativa esforçada de refletir a produção vigorosa e consistente do cinema brasileiro contemporâneo.


A presença da produção pernambucana é marcante, permeando amplamente a programação para além da Mostra Pernambuco. Destaca-se a diversidade geográfica contemplada, com forte presença das produções das regiões do Sertão e de cineastas emergentes. Diversa também em sua pluralidade de criações cinematográficas, onde navegaremos entre ficções, animações, documentários e experimentações híbridas que imprimem ao cinema pernambucano a ousadia e originalidade criativa que lhe é concedida.

São pelas paisagens áridas dos sertões de Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e Ceará que a Mostra Sertões cruza esses horizontes, construindo uma teia de narrativas de fé, futurismo, memória e luta feminista. Já na Mostra Brasil, destacamos a efervescente produção potiguar (RN) e as narrativas que (re)constroem a identidade e autonomia de povos originários que tiveram suas histórias invisibilizadas pela colonização e pelo desenvolvimento do capitalismo em nosso país. Ao mesmo tempo, que buscamos tecer entre os filmes fios que conectam o protagonismo das mulheres em seus espaços de empoderamento e sororidade.

E concebendo um olhar pela política do afeto, pois o amor é político em todos os graus de coragem e de insurgência, se perpetua entre os corpos da diferença o interstício gozo da liberdade de amar e de existir, frente a uma estrutura social heteronomartiva. E por essa essência que fecundamos desejos, sonhos e realidades plurais LGBTQIA+ na Mostra Diversidade. Destacamos produções periféricas, protagonizadas e realizades por transviades, e construções afetivas que nos permitem reconfigurar outras perspectivas sobre o status família, como retrata o longa documentário as Mães do Derick, dirigido pelo cineasta Dê Kelm, ao documentar o cotidiano de Derick e suas quatro mães.

Podemos também inferir que as mostras provocam uma costura entre memórias e a resiliência de não querer esquecer, evidente na conexão entre os três longas: o documentário O bem Virá, da cineasta sertaneja Uilma Queiroz (Mostra Olho D’água), o outro documentário Espero que esta te encontre e que estejas bem, da pernambucana Natara Ney (Mostra Pernambuco) e a ficção Pajeú, do cearense Pedro Diógenes (Mostra Brasil). Entre os gatilhos das lembranças, acompanhamos numa busca obsessiva e persistente, a investigação de caminhos e personagens que ainda guardam resquícios das lembranças, afrontando o desencanto do tempo ou apagamento forçado pela violência de um sistema opressor. Ao recontar as histórias, (re)contamos a nós mesmos que existimos no tempo. Ao documentar a história, que o tempo quisera esquecer, descobrimos o encantamento de revivê-las: eis aqui a magia que o cinema propaga.

Para finalizar, gostaria de destacar a importância do fomento da Lei Aldir Blanc que estimulou amplamente a cadeia produtiva cultural nesse momento pandêmico, onde milhares de trabalhadoras e trabalhadores da cultura tiveram suas atividades presenciais suspensas ou canceladas pela política de prevenção ao covid-19. Graças ao fomento da Lei Aldir Blanc, o Festival Cine Arcoverde pode ser realizado em 2021 em formato online, assim como contemplou, também, boa parte dos filmes que serão exibidos na programação do festival. São os fomentos destinados à cultura que nos possibilitam desfrutar dessa enriquecedora produção cultural e artística brasileira, que nos afaga, nos alegra e nos dá esperança de que amanhã há de ser outro dia.

Esperamos que em um futuro breve a gente se encontre, se abrace e festeje os encontros que o cinema, a cultura e a arte brasileira nos proporcionam!

Por Thay Limeira e Alexandre Taquary